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Enfoque: Com projeto sobre cultivo em tramitação, empresas de cannabis veem rara oportunidade no Brasil

By Ana Mano
    SÃO PAULO, 20 Ago (Reuters) - Fabricantes estrangeiras de
produtos de cannabis têm demonstrado cada vez mais interesse
pelo Brasil, tanto pelo tamanho do seu mercado consumidor quanto
por causa de um projeto de lei que legalizaria o cultivo da
planta aqui.
    Grandes empresas como a Clever Leaves  CLVR.O  da Colômbia e
a Canopy Growth  WEED.TO  do Canadá estão desenvolvendo e já
vendem produtos de cannabis medicinal para um segmento formado
por entre 10 e 13 milhões de pessoas no país. Isto é reflexo de
uma mudança regulatória de 2019, quando a Anvisa permitiu a
importação, venda e fabricação de produtos à base de cannabis.
    Uma eventual autorização para o cultivo de cânhamo e
cannabis no Brasil seria disruptivo. Se concedida, toda uma
indústria poderia florescer em um período entre quatro a cinco
anos, com base na experiência de outros países, como a Colômbia.
    “Em 2025, gostaria de plantar cânhamo no sertão de
Pernambuco”, disse José Bacellar, fundador da empresa VerdeMed
do Canadá, referindo-se a um Estado reconhecido pelo cultivo
ilegal de maconha.
    Um projeto de lei que legalizaria o plantio de cannabis no
Brasil foi aprovado em junho por uma comissão da Câmara. É
possível que a proposta seja encaminhada diretamente ao Senado,
mas um requerimento para votá-la em plenário ainda tem de ser
apreciado. Se sobreviver em ambas as Casas, o presidente Jair
Bolsonaro ainda teria de sancioná-lo.
    Embora as posições conservadoras de Bolsonaro tornem
improvável que ele sancione a lei do cultivo, a proposta tem o
apoio de alguns membros do poderoso lobby agrícola do país, um
grupo de deputados que o ajudou a vencer as eleições de 2018.
    VALE DO SILÍCIO DA CANNABIS
    Na pacata cidade de Viçosa (MG), que alguns chamam de Vale
do Silício da cannabis, pesquisadores estão desenvolvendo
variedades da planta mais adequadas aos trópicos. Se a lei do
cultivo passar e as pesquisas forem bem-sucedidas, o Brasil
poderia se tornar um grande produtor de cannabis e cânhamo,
segundo os especialistas.
    Sérgio Rocha, diretor da startup de cannabis Adwa, descobriu
que cerca de 3 milhões de quilômetros quadrados teriam aptidão
alta ou muito alta para o cultivo da planta no Brasil, com
objetivo de produção de flores, referindo-se a um cultivar
adaptado às condições na América do Sul.
    Mesmo usando apenas uma porção insgnificante da área
potencial, o Brasil poderia facilmente ultrapassar a China --o
maior produtor mundial de cânhamo--, que o cultiva em cerca de
670 quilômetros quadrados.
    “Usar uma parte das terras agrícolas do Brasil seria o
suficiente para dar ao país o título de maior produtor e
exportador mundial de fibras, sementes e flores de cânhamo para
fins medicinais e industriais”, disse Dennys Zsolt, agrônomo
especializado na planta.
    O Brasil proíbe o cultivo de Cannabis sativa L, a espécie de
onde vem o cânhamo e a maconha usada por alguns para fins
recreativos. De acordo com uma lei federal dos Estados Unidos, o
cânhamo é definido como uma planta que contém até 0,3% do
composto psicoativo THC --e suas partes podem ser utilizadas na
produção de alimentos, fibras e outros fins industriais.
    O cânhamo também contém CBD ou canabidiol, um composto útil
no tratamento de problemas de saúde como a epilepsia infantil.
    O cultivo da cannabis no Brasil lançaria as bases para uma
indústria verticalmente integrada. Com suprimento estável de
matéria-prima, as empresas poderiam pesquisar, desenvolver e
fabricar mais produtos feitos com a planta. Isto fomentaria o
crescimento de um mercado de varejo e as exportações de produtos
acabados. A maconha recreativa permaneceria ilegal.
    Gabriela Cezar, presidente-executiva do banco de
investimentos Panarea Partners, com sede em Nova York, vê o
Brasil potencialmente liderando o cultivo na América Latina, uma
região destinada a ser o "epicentro da produção mundial de
cânhamo".
    O Panarea planeja anunciar uma empresa brasileira de
cannabis com foco em produtos farmacêuticos para animais de
estimação, ao mesmo tempo em que busca continuar intermediando
negócios do setor no Brasil.
    VANTAGEM TROPICAL
    Entre as vantagens do Brasil estão os menores custos de
cultivo, porque seu clima quente permitiria que as plantas
crescessem ao ar livre e sem depender tanto de estufas, comuns
em países como o Canadá. Horas estáveis de sol devido à
proximidade do Brasil com o linha do Equador é outra vantagem.
    A Canopy Growth está "monitorando ativamente o avanço da
legislação sobre cânhamo no Brasil", disse David Culver,
vice-presidente de relações governamentais globais da empresa.
    Mas o futuro é incerto sem a mudança da lei brasileira,
embora alguns sinais sugiram perspectivas favoráveis. Quando
Rocha, da Adwa, discorreu sobre o cultivo perante a comissão de
agricultura em 2019, ele temia ser hostilizado por deputados
mais conservadores.
    "Depois de terminar de apresentar os mapas e o potencial do
cânhamo, fui aplaudido", disse ele.
    Embora a bancada ruralista não tenha emitido uma orientação
formal de voto, alguns de seus integrantes afirmam ser possível
obter maioria no Congresso para a proposta. Hoje, a Frente
Parlamentar da Agropecuária (FPA) tem quase a metade das
cadeiras na Câmara e no Senado. A lei requer aprovação por
maioria simples.
    Fausto Pinato, que foi presidente da comissão de agricultura
até março deste ano, disse que apoia o projeto. “Se você está
autorizando a venda (de produtos de cannabis), por que não o
cultivo?”, disse.

 (Reportagem de Ana Mano em São Paulo, Maximilian Heath em
Buenos Aires e Jimim Kang em Seul
Edição de Alexandre Caverni)
 ((ana.mano@thomsonreuters.com; Tel: +55-11-5644-7704; Mob:
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